Roberto Lyra foi uma das maiores personalidades jurídicas brasileiras. Jurista, conferencista e professor de renome internacional, integrou o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro por trinta e seis anos, aposentando-se na carreira. Sua projeção ultrapassou os limites institucionais, sem que jamais se afastasse deles. A prática ministerial e as reflexões sobre as questões sociais e jurídicas de seu tempo — que tinham no crime, na prisão e, em última instância, no banco dos réus do Tribunal do Júri algumas de suas mais perversas problemáticas — constituíram a matéria-prima de centenas de artigos e obras dedicadas ao Direito Penal, ao Direito Processual Penal, à Criminologia, à Filosofia, à Sociologia e à Antropologia Jurídicas.
Natural de Recife (PE), graduou-se aos dezoito anos de idade, em 1920, pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade do Rio de Janeiro, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ingressou no Ministério Público do Distrito Federal em 1924, quando foi nomeado 8º Promotor de Justiça Adjunto. Exerceu suas primeiras funções em Campo Grande durante dois anos, deslocando-se diariamente de trem, conforme relatado por sua esposa, Sophia Augusta de Lyra Tavares. Em 12 de março de 1999, o Programa de História Oral do Poder Judiciário, do Museu da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, entrevistou Sophia, então com 96 anos de idade. Entre as lembranças registradas, destacou a sensibilidade social do marido e sua vocação para o magistério desde muito jovem. Nomeado Professor Coadjuvante do Ensino Noturno aos dezesseis anos de idade, lecionou entre 1918 e 1920 na antiga Escola Miguel Calmon, localizada na Gávea. Muito estimado pelos alunos — em sua maioria operários da Fábrica de Fiação Corcovado —, recebia frequentemente presentes como melancias, mamões, bananas e flores, que compartilhava com sua jovem namorada.
A partir de 1926, foi lotado junto à 2ª Pretoria Criminal e recebeu diversas designações para atuar no Tribunal do Júri. Contudo, foi entre 1931 e 1936 que se consagrou como um dos maiores tribunos do Júri brasileiro. Suas atuações, amplamente divulgadas pela imprensa, despertavam grande interesse do público, especialmente pelos memoráveis embates travados com advogados como Evaristo de Moraes, Mário Bulhões Pedreira e Evandro Lins e Silva. Acusador de retórica vigorosa e eloquente, não hesitava, quando convencido da justiça do caso, em requerer absolvições ou requalificações penais com a mesma firmeza com que sustentava a acusação. Seu compromisso era exclusivamente com a Justiça. Foi nesse período que recebeu de Evandro Lins e Silva, então estudante da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, o epíteto de "Príncipe dos Promotores Públicos".
Entre suas obras dedicadas ao Ministério Público destacam-se O Ministério Público e o Júri (1933) e Teoria e Prática da Promotoria Pública (1937), esta última considerada uma das referências fundamentais para a organização do Ministério Público contemporâneo. Entre 1937 e 1940, atuou junto à 5ª Vara Criminal, conciliando suas funções ministeriais com o magistério na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), instituição criada em 1935 por iniciativa sua e de um grupo de professores.
Promovido ao cargo de Curador de Menores, função que exerceu entre 1938 e 1948, destacou-se pela sensibilidade com que enfrentava a questão do abandono infantil, defendendo políticas de amparo às famílias como forma de prevenção e enfrentamento do problema. Em 1948, foi designado pelo Ministro da Justiça para integrar a comissão encarregada de estudar a reformulação do Código de Menores de 1927. Em 1950, atuou também na Curadoria de Massas Falidas.
A Lei nº 1.301, de 1950, criou quatro cargos de Subprocurador de Justiça, exercidos em função gratificada por Curadores designados pelo Procurador-Geral de Justiça. A partir de 1951, Roberto Lyra exerceu as funções de 1º, 3º e 4º Subprocurador de Justiça, incumbidas, entre outras atribuições, de substituir o Procurador-Geral e atuar perante as Câmaras Cíveis e Criminais da Corte de Apelação. Na condição de 1º Subprocurador, exerceu interinamente o cargo de Procurador-Geral de Justiça durante os meses de julho e agosto de 1958, em razão das férias do titular, Candido de Oliveira Neto. Em 1959, foi promovido ao cargo de Procurador de Justiça.
Em 1946, participou da fundação da Associação do Ministério Público do Distrito Federal, atual AMPERJ, sendo um dos redatores de seu estatuto e integrante do Conselho Consultivo no biênio 1954–1956. Também integrou a comissão responsável pela elaboração do Código do Ministério Público (Lei nº 3.434/1958), primeiro diploma legal a reunir sistematicamente a organização e as atribuições da instituição. Até então, a legislação encontrava-se dispersa em diversos atos normativos. Entre as principais inovações introduzidas pela nova lei destacam-se a criação do Conselho do Ministério Público e do cargo de Procurador de Justiça como órgãos institucionais, além da inclusão do Estagiário Forense como órgão auxiliar.
Após aposentar-se do Ministério Público, em 1960, teve breve passagem pelo Ministério da Educação, em 1962, quando participou das negociações que levaram ao encerramento da greve nacional dos estudantes universitários. Relatou essa experiência na obra Contribuição para a História do Primeiro Governo de Esquerda no Brasil: Conselho de Ministros Brochado da Rocha (1980). Após sua exoneração, dedicou-se integralmente às múltiplas atividades que desenvolvia no campo do Direito, tanto no Brasil quanto no exterior. No magistério superior, aposentou-se da cátedra em 1972.
Em 1980, o então Promotor de Justiça João Marcello de Araújo Júnior, seu ex-aluno e amigo — que atualmente dá nome ao Centro de Memória do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro — publicou a biografia Roberto Lyra. Dois anos depois, em 1982, Roberto Lyra faleceu no Rio de Janeiro, aos oitenta anos de idade.
Em 2002, foi publicada a obra O Centenário do Imortal Roberto Lyra: Coletânea em Homenagem, organizada por Sérgio de Andréa Ferreira e Fernando Galvão de Andréa Ferreira, ambos membros do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A publicação integra o acervo da Biblioteca da instituição.
Em homenagem mais recente, seu sobrenome foi atribuído ao sistema de inteligência artificial Lyra, desenvolvido em 2018 pela equipe da Coordenadoria de Análises, Diagnósticos e Geoprocessamento (CADG), responsável pela plataforma digital MP em Mapas. A ferramenta foi concebida para analisar milhares de documentos judiciais e produzir estatísticas e previsões sobre o andamento de processos repetitivos, contribuindo para uma atuação institucional mais ágil e eficiente nas demandas coletivas. Trata-se de um tributo que procura refletir a extraordinária capacidade intelectual e a incansável dedicação de Roberto Lyra, cuja influência permanece viva na história do Ministério Público brasileiro e do pensamento jurídico nacional.